O cientista Wilhelm Reich, o orgone e a guerra aos ovnis.

Wilhelm Reich nasceu em março de 1897 em Dobryzcynica (atual Ucrânia), na altura parte do Império Austro-Húngaro. Era filho de pais judeus, o pai um próspero agricultor. Faleceu nos Estados Unidos da América em 1957.

Foi famoso psicanalista e terapeuta e desempenhou um papel importante na mentalização das massas na área da sexologia enquadrada na luta de classes a princípio situada na ideologia marxista e posteriormente (a meu ver) na ideologia anarquista. Vários livros foram obras de vulto que marcaram as gerações jovens em alturas de viragens revolucionárias no século XX, mesmo em Portugal, durante o período anterior e seguinte à revolução de Abril. Uma das suas obras mais conhecidas “A revolução sexual” foi publicada em 1930 quando em Berlim Reich era orador principal do Partido Comunista Alemão.

Nesta obra advogava o uso livre de meios anticoncepcionais e o aborto. Colaborou na construção de clínicas nas zonas do operariado e ensinou educação sexual. Esta trajetória não agradou aos dirigentes comunistas sendo expulso do partido em 1933. Neste mesmo ano foi publicada a obra “A psicologia das massas no fascismo” onde Reich definiu fascismo como sinônimo de repressão sexual.

O livro foi proibido pelos nazis na sua ascensão ao poder. Em 1934 Wilhelm Reich foi expulso da Associação de Psicologia Internacional por razões de militância política. Na altura os jornais lançaram campanhas insidiosas contra o clínico classificando-o de feminista, comunista, judeu e, pior, defensor do amor livre. Disfarçado de turista (praticante de ski) fugiu para a Áustria. Partiu para os EUA em 1939 após algum tempo passado nos países nórdicos onde desenvolveu trabalho importante.

De 1934 a 1937 Reich realizou experiências importantes em Oslo cujo objectivo era o de procurar a origem da vida. Em algumas experiências utilizou misturas complexas de culturas de seres unicelulares, relva, areia da praia, ferro e tecido animal levadas até à ebulição, adicionando depois potássio e gelatina. Aquecendo até à incandescência observou a existência de formações biológicas microscópicas (vesículas) que emitiam radiação luminosa azul.

À energia radiada Reich chamou “orgone” e às vesículas formadas chamou “bions” que constituiriam uma forma de vida, muito simples. Uma vez arrefecida a mistura e colocada num meio de crescimento apareciam outros seres microscópicos, as bactérias as quais não podiam ter sido originadas nos materiais de partida nas experiências.

Estas descobertas foram expostas e discutidas na sua obra “The bion experiments on the origin of life” publicada em Oslo em 1938. Já em 1936 na obra “Beyond psychology”, Reich defendia a existência de dois tipos antagónicos de organismos unicelulares: uns destruidores da vida que se formavam a partir da desintegração das proteínas eram os “bacilos T” e outros que se formavam a partir de material inorgânico e promoviam a própria vida. Os “bacilos T” eram promotores do cancro.

Reich concluiu que a diminuição do orgone nas células, através da idade, ou de agressões externas levava à degradação e morte destas. No processo de degradação desencadeia-se a formação de “bacilos T” e, quando o nível destes organismos é excessivo, sobrevém a morte por cancro.

Já nos EUA, em Rangeley no estado do Maine, Wilhelm Reich criou e dirigiu um laboratório de pesquisa biológica e psicanalítica. Nessas instalações construiu caixas acumuladoras de orgon cuja função era concentrar a energia orgónica extraída da atmosfera.

O orgone no seu sentido mais geral, seria uma energia cósmica primordial, onipresente, que emanava a radiação azul e que funcionava como princípio orientador da natureza. Entre outras propriedades determinava o tempo, a cor do céu, a gravidade, a formação das galáxias, as emoções humanas e a sexualidade.

Tecnicamente os acumuladores de orgon eram constituídos por camadas alternadas de metal (ligas a base de ferro) e material isolador, de constante dielétrica muito elevada – à semelhança dos condensadores eléctricos. Reich acreditava que era possível o tratamento do cancro e de outras doenças degenerativas em pessoas colocadas no interior dos acumuladores. Em certos meios da imprensa e na opinião pública os acumuladores eram considerados “caixas de sexo” que causariam ereções penianas incontroláveis.

Nas suas experiências nos acumuladores, Reich terá demonstrado que a energia orgônica era determinada e influenciada por uma “entropia negativa” a qual era correspondente a uma força que concentrava e organizava a matéria. Também nos seus laboratórios, Reich projetou e construiu um canhão (o cloudbuster) com o qual podia controlar as correntes de orgone na atmosfera de modo a induzir a chuva.

Este tipo de aparelho vai aparecer ligado aos ovnis como se verá. Nas experiências com o orgone, Reich envolveu A. Einstein. Em 1940 Reich escreveu a Einstein para uma discussão científica das suas descobertas sobre o orgone.

Em 13 de Janeiro de 1941 visitou Einstein ao tempo residente em Princeton. Aí concordaram testar um acumulador de orgon inserido numa gaiola (eléctrica de Faraday). Reich pretendia mostrar que a temperatura no acumulador subiria sem utilização de uma fonte de calor.

Nas condições em que a experiência se realizava, Einstein achou que se a temperatura subisse seria a descoberta do século pois o aquecimento conseguido permitia a construção de uma máquina de movimento perpétuo – uma impossibilidade de acordo com os princípios conhecidos da Termodinâmica.

Na experiência com o acumulador verificou-se aumento da temperatura, um facto para o qual Einstein não encontrou explicação. Reich concluiu que o calor desenvolvido era o resultado de uma nova forma de energia, a energia do orgone.

No entanto um colega de Einstein, Leopold Infeld interpretou o fenômeno como o resultado da formação de correntes de convecção na câmara, explicação que não chegou a ser testada experimentalmente mas que foi aceite por Einstein.

Seguiram-se anos de discussão entre Reich e Einstein mas este último nunca aceitou as explicações do primeiro. Foram realizadas experiências semelhantes, algumas com sucesso e onde se utilizavam sistemas de controlo de modo a colocar de parte a possibilidade das correntes de convecção nas câmaras de orgone.

Foi a produção e utilização do orgone que levou a que Reich vivesse uma época muito conturbada que lhe arruinou a vida. O psicanalista viu-se envolvido num processo de difamação e ataque materializado em artigos publicados em jornais de 1947.

Estes ataques chamaram a atenção da Food & Drug Administration (FDA) que se veio a mostrar muito adversa às atividades de utilização do orgone como coisa “real” capaz de ser extraída da biosfera e eficaz no tratamento das doenças degenerativas utilizando as câmaras. Foi também acusado de atividades subversivas e foi investigado pelo FBI.

Mesmo após ser levantada a suspeição dessas atividades, a FDA nunca mais o deixou em paz, proibindo a utilização do equipamento de Reich na sua utilização terapêutica. Reich foi preso em Maio de 1956 por violação “técnica” do mandato de proibição.

Em Junho de 1956 agentes da FDA dirigiram-se à propriedade de Rangeley, Maine e destruíram acumuladores de orgon e queimaram uma grande parte dos livros. Nos anos seguintes as “autoridades” reincidiram, queimando o que restava (diz-se que foram seis toneladas de livros, jornais e artigos).

Em 3 de Novembro de 1957, Wilhelm Reich veio a falecer enquanto dormia, vítima de ataque cardíaco na penitenciária de Lewisburg no estado da Pensilvânia.

Mas como ficou Reich ligado à ovniologia?

Reich-UFO

A carreira do psicanalista austríaco, discípulo de Freud, Wilhelm Reich foi marcada por tantas controvérsias que um dos seus trabalhos mais curiosos, a batalha contra OVNIs invasores, passou praticamente despercebido.

Rezam as crônicas (documentos pessoais do clínico) que em 28 de janeiro de 1954 no estado do Maine, Reich observou duas luzes amarelo alaranjadas em movimento sobre uma montanha em direção a um lago. Não teria sido esta a sua única observação.

Mesmo sobre as suas instalações laboratoriais terão ocorrido manifestações ovni fatos que foram comunicados à Força Aérea Americana (USAF). Nos anos de 1950 especulava-se sobre a origem extraterrestre dos ovnis e isso, em parte levou Reich a acreditar em contatos com seres do espaço exterior.

Também o excelente e célebre livro de Donald Keyhoe de título “Flying saucers from outer space” publicado em 1953 terá influenciado muito o psicanalista. A vida de Wilhelm Reich mudou deste então, passando este a orientar grande parte do seu trabalho na invenção de instrumentos funcionando à base de orgone e capazes de destruir os objetos intrusos (ovnis). Propôs à USAF que se encontrava confundida com a presença de estranhos objetos alienígenas, a utilização das suas descobertas.

A proposta foi recusada em grande parte devido à proibição por parte da FDA da distribuição de equipamento à base de orgone para finalidade clínica. Podem encontrar-se pormenores deste assunto na obra “Contato com o espaço”. É de referir que em 1951 a USAF recebeu um relatório pormenorizado de Reich o qual continha um conjunto de equações “orgonométricas” aparentemente incompreensíveis para os militares pelo que não terá havido resposta das esferas militares ao clínico.

O assunto da ameaça extraterrestre, empolgada nesta altura por militares e políticos de envergadura foi tomada a sério por Reich de modo que este fazia o “varrimento” do céu noturno com o canhão de orgone (o cloudbuster). Ao que parece estes instrumentos eram eficazes na luta anti-ovni já que, pelo que consta, o clínico e seus colaboradores em determinada altura viram luzes apagar-se no céu, diluídas pelos tubos dos canhões.

A experiência teria sido repetida várias vezes com o mesmo resultado. Ora o alcance dos cloudbusters era de alguns quilômetros e pensou-se então que tinha havido eficácia na destruição dos invasores.

cacador_nuvens

O convencimento de Reich foi tal que veio a testar no deserto do Arizona aparelhos deste tipo. Reich sustentava mesmo que o orgone era usado na propulsão dos ovnis.

Para terminar esta nota biográfica de Wilhelm Reich cabe referir que a sua influência em psicoterapia foi grande de modo que os seus trabalhos pioneiros em bioenergética tiveram e têm continuidade por parte de vários discípulos: Alexander Lowen fundou a Análise Bioenergética, Charles Kelley a Terapia Radix e James DeMeo dirige o Orgone Biophysical Research Laboratory.

Recentemente um cientista (Don Croft) inventou um canhão (cloudbuster) simples e eficaz. Converte o “orgone morto” existente na atmosfera em “orgone positivo” que permite dispersar rastos de químicos (chemtrails). Falta dizer que Wilhelm Reich influenciou com o seu orgone e cloudbusters cantores pop (como por exemplo Patti Smith, Kate Bush que compôs “Cloudbusting” e Frank Zappa entre outros).

O seu próprio filho Peter Reich conta a história paterna em “A book of dreams”. O filósofo e escritor de ficção científica Robert Anton Wilson é autor da peça “Reich in the hell” que é baseada na sua vida. A realização cinematográfica não ficou indiferente à vida sinuosa de Reich.

Em 1971 o realizador Iugoslavo Dusan Makavejev realizou um filme sobre os ensinamentos de Reich com o título “W. R.: Mysteries of the organism”.

Bibliografia
[1] Fernandes, J. Orgone de Wilhelm Reich na guerra contra os Aliens, Jornal de Notícias, 23 Dez. 1999.
[2] Reich, W. O combate sexual da juventude, Textos marginais, Porto, 1975.
[3] Reich, W. A revolução sexual, Edts. Zahar, Rio de Janeiro, 1975.
[4] Reich, W. A Função do Orgasmo. Pub. Dom Quixote, Lisboa, 1979.
[5] Reich, W. Escuta, Zé Ninguém!, Pub. Dom Quixote, Lisboa, 1974.
[6] Reich,W. Psicologia de massas no fascismo. Pub. Escorpião, Porto, 1974.
[7] Reich,W. The bion experiments on the Origin of Life, Farrar, Straus & Giroux, 1979.
[8] Reich,W. Beyond Psychology: Letters and Journals, 1934-1939, Edited by Mary Boyd Higgins. Farrar, Straus and Giroux, New York, 1994.
Na internet podem encontrar-se muitos sites dedicados a Wilhem Reich por exemplo em
www.orgonelab.org fundado pelo investigador James deMeo (Ph. D).
Autor: A. G. M. Ferreira – Professor da Universidade de Coimbra.